Hoje Protosophos tem o prazer de entrevistar Alexandre Soares Silva. Contatei-o por e-mail há algumas semanas e, como combinado, ele enviou-me as respostas às minhas perguntas. Para vocês que ainda não entenderam como essas entrevistas são feitas, explico agora. Trata-se de um processo muito simples. Faço várias perguntas em uma pergunta (isso mesmo que você leu) de modo a deixar o interlocutor meio que na obrigação de escrever algo substancial — dado o grande número de perguntas em uma só pergunta.
Pessoalmente, acho que esse formato funciona. E dá voz a grandes personalidades de uma microesfera macrocósmica (podem rir), que são os blogs inseridos na chamada rede mundial de computadores (essa expressão é meio datada, não?).
Sem mais nada a dizer, apresento-lhes as palavras de Alexandre Soares Silva.
Protosophos: Como se deu a sua formação intelectual? Por quais assuntos você primeiro se ligou?
Alexandre Soares Silva: Supondo-se que eu tenha uma formação intelectual. Embora eu leia bastante e não seja extraordinariamente burro, no fundo não tenho formação intelectual nenhuma. Leio só o que gosto e, como conseqüência, minha cultura é esburacada. Mas para responder a sua pergunta, cresci numa boa biblioteca. Ficção, principalmente. Quase tudo que leio é ficção. Pensando em todas as coisas que li na infância e na juventude, acho que consegui não tanto uma formação intelectual, mas uma formação estética. É o que me interessa mais, de qualquer forma. Pode me chamar de burro ou inculto se quiser — só não diga que eu escrevo mal, ou que não sei distinguir entre quem escreve bem e quem escreve mal.
Protosophos: Escrever é tão vital como ler? Ou vital é apenas matar a fome? Quando você começou a escrever?
Alexandre: Desde criança tenho a certeza que nasci para escrever e que não devo fazer outra coisa. Comecei com oito anos. Fui com a minha mãe ao supermercado e pedi que ela comprasse um caderno quadriculado, porque ele era bonito, e no mesmo dia comecei a escrever uma história bastante idiota, bastante infantil, no pior sentido da palavra. Eu não acho que eu fosse muito precoce, porque só escrevia coisas realmente cretinas. Acho que não escrevi nada muito bom até os vinte e dois, vinte e três anos. Ainda bem que não existiam blogs quando eu era adolescente, porque teria sido patético. Eu teria muita vergonha agora.
Mas espera, vou contar uma coisa que aconteceu quando eu tinha acabado a faculdade e não sabia o que fazer e tal. Fui fazer um curso de roteiro de novela porque me disseram que roteiristas de novela ganhavam bem e ficam de férias durante meses e meses. O curso era dado por uma anã que por algum motivo qualquer gostava de representar cenas de estupro deitando na mesa na frente da sala toda, gritando e puxando a calcinha para um lado.
No curso havia uma bicha que sentava no fundo da sala e interrompia a aula sempre para contar em detalhes o enredo de um livro que ele estava escrevendo, e que tinha, sem exagero, 40 personagens. Ele ficava descrevendo cada personagem e a relação entre eles. "Porque o Ayrton é um cara que...", etc. Mas um dia ele levantou no meio da aula, apontou para mim (eu demorei pra virar pra trás porque era muito envergonhado) e disse que ele tinha recebido orientação "dos espíritos" de que "aquele rapaz ali" iria se tornar um grande escritor. E eu acreditei completamente nessa bicha profética. Bom, já acreditava nisso, só me serviu de confirmação. Foi um grande momento para mim. Foi como o Rei Artur tirando Excalibur da rocha.
Protosophos: Qual foi o seu primeiro blog e por que você decidiu escrevê-lo?
Alexandre: Eu tinha 32 anos e três livros publicados, que receberam algumas boas críticas mas vendiam pouco. Então pensei em usar a internet para fazer um pouco de publicidade. Comecei numa revista online chamada Digestivo Cultural, escrevendo uma coluna por semana. Gostei da sensação. Pela primeira vez na vida encontrei um estilo próprio meu. Antes, quando tentava escrever alguma coisa de não-ficção, saía cópia ou de Paulo Francis ou de Mencken. Também era um prazer ver os comentários: algumas pessoas comicamente furiosas e tal. Na época eu era mais inexperiente e respondia. Hoje acho que é bobagem responder.
Mas é cansativo ter que escrever textos, de graça, com prazo e tamanho fixo, de modo que saí do Digestivo depois de um ano e abri o meu blog, que é o mesmo de agora só que era no blogspot. Um ano depois disso um grupo de amigos formou um portal de blogs chamado Wunderblogs e eu fui convidado. Este dezembro fiz quatro anos de blog.
Protosophos: A blogosfera acaba gerando, para os bons escritores, um círculo restrito de leitores. Como é ter uma fama restrita? Quais blogs você lê e recomenda?
Alexandre: Sou suficientemente exibicionista para lamentar que seja uma fama restrita, mas calma, ainda chego lá. Quanto aos blogs que leio e recomendo, leio muitos, principalmente portugueses — os blogs portugueses são os melhores do mundo. Comece pelo Voz do Deserto e vá explorando os links dele. Os brasileiros já foram melhores do que são, e aqueles que eu achava muito bons foram fechando. Na média são muito piores que os portugueses. Nada é tão ruim quanto um blog brasileiro ruim. Não sabem escolher layout, não sabem escrever, não sabem fazer piada. Se eu entro num blog em que nunca estive e vejo que o layout é ruim, cor de ranho ou cheio de selinhos, já sei que é brasileiro. Fiquei viciado em ler blogs ruins brasileiros durante algum tempo, mas parei com isso faz um ano já. Entre os blogs brasileiros bons, cito o do Julio Lemos. Eu costumava gostar do conteúdo do blog dele e nem tanto do estilo, mas ele mudou o estilo completamente e hoje o blog dele é um dos melhores, se não for o melhor. Ainda não me recuperei completamente do fim do Manobra, 1979. (Citaria o da minha namorada também, que na verdade é o meu favorito, mas daí nós dois entraríamos numa espiral de vergonha.)
Protosophos: Até onde sei você é espírita — embora possa estar errado. Como é ter amigos sobretudo cristãos? Você realmente acredita em reencarnação? Qual é a sua visão sobre a idéia corrente de "espiritualidade"? Trata-se de um fenômeno new age?
Alexandre: Sempre hesito antes de dizer que sou espírita por causa da horrível falta de chic da coisa toda. Fui criado entre espíritas mas desde pequeno tenho horror aos livros, aos centros e às pessoas espíritas. Me dói ser de uma religião intelectualmente tão pobre que usa Augusto Comte como outras usam Sto. Tomás ou Martinho Lutero. Se pudesse virava católico, e não estou brincando, mas infelizmente sim, realmente acredito em reencarnação, carma e nessas coisas todas.
Sobre a sua pergunta — mind you, espíritas kardecistas costumam se considerar cristãos. Podem não ser considerados cristãos por nenhum outro tipo de cristão, e pode ser discutível que sejam de fato cristãos porque não conheço um que acredite na divindade de Jesus Cristo, mas a leitura dos Evangelhos faz parte da religião — os Evangelhos comentados por Allan Kardec, é verdade, mas mesmo assim os Evangelhos.
Sobre "espiritualidade", é difícil ouvir a palavra sem vomitar um poquinho.
Protosophos: Muitas pessoas têm uma enorme antipatia por Joseph Ratzinger. Qual é a sua opinião sobre o conservadorismo da Igreja?
Alexandre: Bom, eu sou "proto-católico", "filo-católico" — não sei exatamente a classificação. Numa discussão entre qualquer grupo, de um lado, e a Igreja de outro, tomo sempre o lado da Igreja. Quase todos os meus escritores favoritos eram católicos. Sinto toda a atração estética da Igreja, mas infelizmente não posso me converter só porque acho o prédio bonito. Sinto a atração intelectual também, mas meu problema é que não consigo acreditar no Inferno. É realmente a única coisa que me impede de virar católico. Porque se é verdade que acredito em reencarnação e acho que ela explica muitas coisas, não estou emocionalmente apegado à idéia e estaria pronto a acreditar na doutrina católica como um todo — se pudesse acreditar no Inferno.
Tendo dito isso, estou longe de achar a idéia idiota. Sei muito bem que pessoas melhores e mais inteligentes que eu acreditavam no Inferno. Continuo lendo sobre o assunto e considero a possibilidade de estar errado. Mas sempre concordo com um amigo cristão que me disse que acreditar no Inferno faz com que você às vezes se sinta como se entrasse na cozinha de repente e flagrasse a sua mãe batendo na empregada. Você ama a sua mãe mas fica com vergonha de a ver fazendo aquilo. No fundo não consigo achar que uma bobagem cometida numa tarde qualquer na vida de uma pessoa, como o suicídio, digamos, mereça uma punição eterna. Não quero que Marilyn Monroe esteja no Inferno. Não acredito que Deus seja tão pouco galante que coloque Marilyn Monroe no Inferno. Mas é verdade que tanto ateus quando cristãos acham que o suicídio é uma coisa que você pode se decidir a fazer em cinco minutos e sofrer uma consequência eterna por isso. Nesse ponto os dois estão de acordo, e eu em desacordo com os dois.
Só me lembro de ter sentido a justiça da existência do Inferno uma vez. Fui visitar um amigo e vi entre os livros dele um exemplar do Livro Negro do Comunismo. Tirei o livro da estante, por curiosidade, e logo de cara abri numa foto de um russo sendo empalado. Ele estava no campo cercado por vários soldados que estavam rindo. Fechei o livro logo porque odeio ver essas coisas, sou muito fresco, mas me lembro de ter sentido (não pensado, sentido) que nenhum castigo mais curto que a enternidade seria o suficiente para aquela gente. De modo que talvez exista uma boa explicação para o Inferno e eu é que não tenho uma boa noção da hediondez das pessoas. É possível.
Quanto a Ratzinger, adoro o sujeito. Sobre o conservadorismo na Igreja, um não-católico não deveria dar palpite, mas eu gostaria de ver uma missa em latim com o padre virado de costas.
Protosophos: Você declarou voto em Geraldo Alckmin. Ele era realmente um bom candidato ou foi a opção pelo menos pior? Qual é a sua visão sobre o quadro político ideal no Brasil?
Alexandre: Era o menos pior, claro. Queria evitar Lula, mas não tenho simpatia nenhuma nem por Alckmin nem pelo PSDB. Acho estranho quem gosta de político, quem se empolga com partido. Não sou libertário nem sou muito fanático pelo Estado Mínimo, mas é claro que o Estado brasileiro tem que ser bastante reduzido. Isso é óbvio e, dizendo assim, quase todo mundo concorda. É difícil encontrar uma pessoa hoje em dia que defenda, com essas palavras, um Estado Grande. Oh, não, antes um Estado Eficiente — um Estado Forte!, dizem como pequenos Conselheiros Acácios. Mas Estado Grande quase ninguém defende, na teoria. Todo mundo diz que o Estado brasileiro é grande demais, mas na prática acham que o Estado tem que assumir esta ou aquela boa causa e o resultado é o tamanho gigantesco dele, e o roubo e a incompetência grotesca. Sou a favor de quem privatizar (o que nem era o caso de Alckmin, como ele fez questão de dizer, horrorizado).
Protosophos: O que você pensa sobre leis de incentivo à cultura, como a Lei Rouanet?
Alexandre: O Estado tem notório mau-gosto, não tem? Não acho que as empresas sejam muito melhores. Acho que nenhum filme devia ser financiado pelo Estado, porque o mundo vive bem sem filmes brasileiros. Pior ainda com relação a livros, instalações, festival disso e daquilo. Não queria que nenhum centavo fosse gasto com isso e que empresa alguma recebesse incentivo pra financiar essas coisas. Mas entendo investimentos em orquestras e balés. Só isso. Orquestra e balé, e pára por aí.
Protosophos: Escritores definem destinos; pelo menos de seus personagens. Você acredita em algum "script" que nos guia?
Alexandre: Acredito que as pessoas tenham tendências gerais, uma propensão para isso ou para aquilo, mas nada que vá contra o livre-arbítrio.
Protosophos: Você lê muitos autores, por assim dizer, alternativos. Quais você poderia enumerar para nossos leitores? O que você acha do establishment da literatura mundial? É medíocre e decadente ou é de alto nível?
Alexandre: Eu gosto realmente de falar de autores pouco conhecidos, em parte pelo simples prazer esnobe de mostrar que conheço algo que pouca gente conhece. É um prazer simples e saudável. É como um colecionador mostrando uma moeda rara que ele comprou. Querer acabar com esse orgulho seria inumano.
No caso da literatura, ninguém precisa que alguém lhes recomende a leitura de Tolstói, ou de Kafka, ou de Thackeray. Todo mundo sabe que precisa ler esses autores, pelo menos se quer se dizer civilizado. Então prefiro falar de autores menos conhecidos.
A lista é grande, claro, mas escolhendo uns nomes ao acaso, eu queria que John Collier, Eric Ambler, M. R. James, William Roughead, R. K. Narayan, George MacDonald Fraser, E. F. Benson, Nancy Mitford, Algernon Blackwood, Compton Mackenzie e o Barão Corvo fossem mais conhecidos. Mas o problema é que no Brasil até gente como Swinburne ou De Quincey devem ser obscuros.
Quanto ao establishment da literatura mundial, tenho que confessar que não leio muitos autores vivos. Tenho a tendência a ler livros de 1950 pra trás. Então não sei muita coisa. Sei que não estou interessado em Salman Rushdie ou Ian McEwan. Meu escritor vivo favorito é Salinger, mas também ele não está muuuuito vivo.
Recentemente descobri Mark Helprin e gostei muito. O que realmente me mete nojo são esses escritores que escrevem artigos para jornais sobre os Grantes Temas do Dia. Se escreveu sobre 9/11, mesmo que sua opinião coincida com a minha (sou as pro-American as it gets), já me desinteressou completamente. Acredito na literatura como uma ocupação frívola para cavalheiros. Acredito em estética e o resto me aborrece.